Como uma pessoa autista não diagnosticada pode sofrer com positividade tóxica
Atualizado: 30 de set.

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Artigo escrito por Silvana de Andrade Santos (CRP 06/139983), pós-graduada em Avaliação Neuropsicológica e ABA aplicada ao autismo
Por que me sinto tão diferente e não consigo acompanhar os outros?
Se você já se fez essa pergunta, este texto é para você.
Você já viu vídeos de coaches de produtividade e finanças que prometem liberdade e riqueza com um método infalível, falando de livros que prometem milagres ao acordar extremamente cedo para fazer atividades como visualização, meditação, exercícios, banheiras de gelo?
Já assistiu vídeos de coaches com voz mansa, palestrantes de alta performance que reduzem o sofrimento humano a uma questão de "mentalidade" e "esforço", falando sobre pensamento positivo, poder da repetição e como você se acostuma com rotinas entre 21 dias ou 66 dias? (por mais que a ciência já tenha comprovado que esses números não são reais)
Assistiu palestras, filmes, vídeos, podcasts, cortes e vídeos curtos em redes sociais, gurus da produtividade que vendem uma rotina perfeita de acordar às 5h, falando sobre o poder de acreditar, se esforçar muito, você consegue, meritocracia?
Hoje eu quero conversar com você sobre o perigo do pensamento positivo.
É isso mesmo, e sim, eu sou psicóloga, e eu sei que acreditar em si mesmo e na sua capacidade é um primeiro passo para conseguir fazer mudanças na sua vida.
Mas antes de começarmos essa conversa, nós precisaremos traçar um paralelo para diferenciar o pensamento positivo em si mesmo e um pensamento positivo que se torna inalcançável.
Acreditar na sua capacidade não é o mesmo que ignorar limitações. E neste momento precisamos entender que pessoas podem sofrer com limitações físicas, psicológicas, financeiras, culturais, sociais, traumáticas, neurológicas, políticas, geográficas, entre várias outras possibilidades.
Quando alguém passa anos consumindo conteúdo de superação sem entender o próprio funcionamento, ela não está se motivando. Está se torturando e assumindo uma responsabilidade que não é dela pela frustração e pelo fracasso.
Ignorando que o mundo foi projetado para levar muitos ao fracasso (e nem sempre ela terá responsabilidade nisso).
Já é terrível essa projeção de culpa sobre as costas de uma pessoa neurotípica, que já carrega suas dores. Mas imagina o impacto sobre uma pessoa autista nível 1 ou nível 2 de suporte que ainda hoje não foi diagnosticada…
Uma pessoa que viveu mascarando seus sintomas, que não sabe ao certo como lidar com seus sentimentos, que não consegue se encaixar no mundo e que vive escondendo suas limitações.
Uma pessoa influenciada por essa cultura de positividade tóxica pode ser induzida a levar suas dores ao nível máximo, podendo entrar em crises de shutdown e meltdown (crises de desligamento e de sobrecarga) sem entender o motivo. Passa a ser julgada como desregulada, vista como tóxica, egoísta, e ainda sofre muitos diagnósticos errados por profissionais que não estão preparados para diagnosticar pessoas com TEA, principalmente mulheres.
Por que mulheres autistas são diagnosticadas mais tarde?
Mulheres autistas nível 1 e nível 2 de suporte são o público que mais cresce nos diagnósticos desde o início de 2022, quando o Censo passou a perguntar sobre TEA em sua pesquisa (segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE).
Elas são parte de um imenso público que entra em crise e até apresenta piora e redução de habilidades quando expostas a esse tipo de cultura de produtividade tóxica.
Elas se cobram de não serem iguais à maioria. Sofrem com atrasos nos diagnósticos pelo masking elevado (mascaramento — esconder comportamentos para parecer neurotípica) e pela cultura que diz que, se pensarem positivo, poderão fazer o que quiserem. Mas elas não conseguem. Entram em depressão por acreditarem que falharam, que são preguiçosas, fracas. A autoestima decai totalmente, sem entender que o mundo precisa se adaptar, acolhê-las, dar suporte. E que suas questões são estritamente neurológicas e não vão mudar por pensamento positivo ou repetição.
Coisas como suportar ambientes lotados, altos níveis de interação social, estímulos de luz ou cheiros, temperatura — nada disso vai mudar por mais que elas pensem positivamente. Mesmo com treinos para adaptação, sempre sofrerão com estímulos que o cérebro não processa bem. E cada pessoa PRECISA SABER RECONHECER E RESPEITAR SEUS LIMITES.
Bom… se você se sente assim, saiba: você não é preguiçosa, nem fraca, nem incapaz. Você está tentando viver com um manual que não foi escrito para o seu cérebro, e pensar positivo não muda sua estrutura neurológica.
Agora, acreditar que você pode encontrar um espaço que te respeita, que te ajuda a entender seus limites e a sustentá-los — isso sim muda sua realidade.
FAQ sobre autismo não diagnosticado
O que é masking no autismo?
Masking (mascaramento) é o ato de esconder comportamentos autistas para parecer neurotípica. É muito comum em mulheres e uma das razões pelas quais o diagnóstico demora.
O que é shutdown e meltdown?
Shutdown é uma crise de desligamento — a pessoa se retrai, perde a fala ou a capacidade de reagir. Meltdown é uma crise de sobrecarga — a pessoa perde o controle emocional e pode ter explosões. Ambos acontecem quando o sistema nervoso é sobrecarregado.
Por que mulheres autistas são diagnosticadas mais tarde?
Porque muitas aprendem a mascarar desde cedo. Além disso, os critérios de diagnóstico foram construídos com base em homens autistas, o que faz com que mulheres passem despercebidas.
Positividade tóxica piora os sintomas de TEA?
Sim. Quando uma pessoa autista não diagnosticada é exposta a conteúdos que dizem "se você pensar positivo, você consegue", ela pode interpretar suas limitações neurológicas como falha pessoal. Isso agrava quadros de ansiedade, depressão e crises.
Quais são os sinais de autismo não diagnosticado em adultos?
Alguns sinais comuns incluem:
• Sensibilidade sensorial — luz, som, cheiro, textura de roupas, temperatura. Por exemplo: só você reclama do volume da TV ou do som; só você prefere luzes amareladas ou desligadas; só você sente cheiros que ninguém mais sente, como o de utensílios de cozinha.
• Seletividade alimentar — aversão a texturas, cheiros, sabores. Por exemplo: você evita certos alimentos não por gosto, mas porque a textura ou o cheiro te incomodam de um jeito que os outros não entendem.
• Necessidade de beber álcool ou usar drogas para suportar situações sociais — porque a interação social, sem esse recurso, é neurológica e emocionalmente exaustiva.
• Exaustão extrema após interação social — mesmo que o dia tenha sido agradável. Por exemplo: você chega em casa depois de um dia bom e simplesmente não consegue falar. Fica sem palavras, sem energia, e as pessoas interpretam isso como frieza ou cansaço comum.
• Dificuldade com mudanças de rotina e imprevistos — por exemplo: se os colegas mudam os planos de última hora, você é visto como o chato que não aceita mudanças. Se o horário da reunião do trabalho ou da escola muda, você fica perdido o dia inteiro por causa disso.
• Rigidez cognitiva — necessidade de padrões e regras claras. Por exemplo: você gosta de usar sempre as mesmas roupas, com os mesmos tecidos, cores e estruturas. Quando a família insiste para você mudar, você não gosta — e não é teimosia, é desconforto real. As pessoas também dizem que você leva regras e justiça muito a sério.
• Desconforto em ambientes cheios ou muito estimulantes — e a sensação de que só você parece não aguentar o que todo mundo suporta bem.
• Sentimento intenso de justiça social — você se incomoda profundamente com injustiças, quebra de regras e situações que parecem erradas, mesmo quando não afetam você diretamente.
• Crises de shutdown ou meltdown sem causa aparente — por exemplo: ficar sem falar depois de um dia inteiro, mesmo que tenha sido agradável, ou uma reação agressiva que veio do nada, que você mesmo não entendeu, e que depois te faz sentir culpa e vergonha.
O que fazer se eu me identificar com este texto?
Buscar avaliação profissional especializada em TEA em adultos e mulheres. O diagnóstico tardio é possível e traz alívio para muitas pessoas.
Se este texto te fez pensar, se você se identificou com as situações de positividade tóxica, se você se acha uma pessoa diferente da maioria e precisa de ajuda, entre em contato. Agende uma conversa inicial e vamos falar sobre como posso te ajudar.
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